O que significa fare a scarpetta e outros gestos da cultura italiana à mesa

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Sumário

Existe uma cena que se repete em cozinhas, trattorias e mesas de família por toda a Itália: o prato está quase vazio, restam apenas rastros de molho, e alguém pega um pedaço de pão com os dedos e o passa lentamente pela louça.

O gesto tem nome, tem história e tem um significado que vai muito além da etiqueta. Chama-se fare a scarpetta, e é uma das expressões mais genuínas do que os italianos chamam de piacere della tavola, o prazer da mesa.

Para quem tem raízes italianas, reconhecer esses pequenos rituais é também uma forma de se aproximar da cultura herdada pelos antepassados que emigraram para o Brasil.

O que significa fare a scarpetta

A tradução literal da expressão é "fazer o sapatinho". Quando o pão é dobrado e mergulhado no molho, ele assume a forma de um pequeno sapato, deixando rastros no prato, como pegadas. Daí o nome.

A expressão encontra sua origem nos dialetos do sul da Itália e designa o ato de recolher o molho restante no prato passando um pedaço de pão com os dedos.

As primeiras referências documentadas aparecem em textos em dialeto romano, com uma atestação de 1871, e em dialeto abruzzense, em 1885, sugerindo uma origem centro-meridional da expressão. 

Se a expressão fare a scarpetta consta no Dicionário Treccani desde 1987, o costume na linguagem popular é muito mais antigo.

A origem do gesto: da cucina povera ao elogio máximo

Uma das teorias mais difundidas conecta a prática à cucina povera, a cozinha dos pobres, de um tempo em que as pessoas estavam literalmente tão com fome que aproveitariam até a sola do sapato.

Quando não se sabe quando se vai comer novamente, faz sentido recolher cada gota de molho.

Outra hipótese propõe que o hábito se intensificou após a introdução do tomate na dieta italiana, no final do século XVI. Antes disso, os molhos eram mais espessos e robustos. Com o tomate, os molhos se tornaram mais líquidos e, portanto, passaram a exigir esse gesto de recolhimento.

Há ainda quem relacione o termo à palavra napolitana e siciliana "scarsetta", que indica pobreza, sugerindo que a expressão descrevia originalmente quem era forçado a se contentar com os restos do prato alheio, recolhidos com pão. 

Independentemente da origem, o gesto evoluiu. Hoje, fare a scarpetta é considerado o maior elogio que um comensal pode fazer a quem cozinhou.

Não há elogio mais fino à culinária de alguém do que um prato completamente limpo, entusiasticamente varrido. 

Do Galateo às cozinhas estreladas

O Galateo overo de' costumi, publicado em 1558, proibia o gesto categoricamente, em parte porque envolve usar as mãos para tocar o alimento, mas também porque era historicamente associado à pobreza, à fome e à guerra.

Com o tempo, os costumes se flexibilizaram. O Galateo moderno não proíbe a scarpetta, mas restringe o gesto a ocasiões informais e indica que seja feito com o garfo, não com as mãos. 

Na prática, porém, a versão com os dedos é a mais comum e a mais apreciada, especialmente em contextos familiares.

Um dos maiores entusiastas do gesto é Massimo Bottura, chef do restaurante Osteria Francescana, três estrelas Michelin em Modena, considerado um dos melhores restaurantes do mundo. 

O fato de um chef de tal calibre defender publicamente a scarpetta diz muito sobre a reabilitação cultural do gesto nas últimas décadas.

Variações regionais e o papel do pão artesanal

O pão é personagem central nessa tradição, e na Itália cada região tem o seu. Na Toscana, o pão sem sal, chamado de pane sciocco, é o mais tradicional. No sul, pães rústicos de farinha de semolina, como o pane di Altamura da Puglia, têm a estrutura firme ideal para o gesto.

No centro do país, os pães de fermentação natural com casca grossa são igualmente apreciados.

A regra não escrita é que o pão deve ter corpo suficiente para absorver o molho sem desmanchar. Pão fresco, de preferência ainda morno, transforma a scarpetta em uma experiência à parte.

As diferenças entre fazer a scarpetta em casa e em um restaurante também existem. No ambiente familiar, é comum que todos disputem quem vai limpar a travessa coletiva com o último pedaço de pão.

Em restaurantes, mesmo os mais informais, o gesto é feito com mais discrição, e em alguns estabelecimentos o próprio chef incentiva a prática como parte da experiência gastronômica.

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Outros gestos italianos à mesa e além

O fare a scarpetta faz parte de um repertório mais amplo de comunicação não verbal que os italianos dominam com naturalidade. A gestualidade italiana é reconhecida no mundo inteiro como parte da identidade cultural do país.

Alguns gestos comuns que qualquer descendente de italiano já viu em casa:

  • O dedo indicador rodando na bochecha, chamado de "cavolo" ou "che buono", indica que algo está delicioso.
  • Os dedos reunidos e sacudidos no ar expressam dúvida, impaciência ou questionamento, dependendo do contexto.
  • A mão espalmada virada para cima com movimento de afastamento significa indiferença ou rejeição.
  • Os dedos pressionados juntos em direção à boca indicam aprovação intensa de uma comida ou situação.

Esses gestos, assim como a scarpetta, são transmitidos dentro das famílias sem que ninguém precise ensinar. Chegaram ao Brasil junto com os imigrantes do final do século XIX e ainda aparecem nas mesas de descendentes italianos no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Espírito Santo.

Comparativo: fare a scarpetta em diferentes contextos

Contexto

Com as mãos

Com o garfo

Aceito socialmente

Mesa de família

Sim, muito comum

Pouco usual

Totalmente

Trattoria informal

Sim

Sim

Sim

Restaurante médio

Com discrição

Preferível

Em geral sim

Restaurante estrelado

Raro

Incomum

Depende do chef

Evento social formal

Não recomendado

Não recomendado

Não

Perguntas frequentes sobre a scarpetta

É considerado falta de educação fazer o fare a scarpetta em restaurantes na Itália?

Depende do contexto e da geração. Em restaurantes informais e trattorias, o gesto é amplamente aceito e até esperado. Em restaurantes mais formais, a etiqueta ainda franze o nariz, especialmente para gerações mais antigas.

A tendência atual, no entanto, é de maior aceitação, especialmente com chefs que defendem a prática como parte da experiência gastronômica italiana.

Qual é o tipo de pão mais indicado para realizar o fare a scarpetta corretamente?

Pão artesanal com boa estrutura, casca firme e miolo denso é o mais indicado. O pão fresco, ainda morno, é a escolha ideal. Pães industriais, muito macios ou com aditivos que os tornam quebradiços, não absorvem bem o molho e comprometem o gesto.

Na Toscana, o pane sciocco sem sal é clássico; no sul, o pane di Altamura é referência.

Existe algum molho específico que originou a tradição do fare a scarpetta?

Não há consenso histórico sobre um molho fundador. A hipótese mais documentada associa a difusão do gesto à chegada do tomate na culinária italiana, no século XVI, quando os molhos passaram a ser mais líquidos.

Hoje, os molhos mais associados à prática são o sugo al pomodoro, o ragù à bolognesa e o sugo all'amatriciana. Mas qualquer molho que deixe rastros no prato é convite suficiente.

Um gesto que veio da Itália e ficou nas famílias brasileiras

Quem cresceu em uma família ítalo-brasileira provavelmente já fez a scarpetta sem saber o nome. O gesto atravessou o Atlântico junto com os imigrantes e sobreviveu nas cozinhas do sul do Brasil, do interior de São Paulo e das colônias de descendentes espalhadas pelo país.

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