A Itália que se vê — cúpulas, campanários, fachadas de mármore — é apenas metade da história. Sob as ruas, sob as igrejas, sob os bairros históricos, existe outra Itália: escavada, habitada, rezada e enterrada ao longo de milênios. As cidades subterrâneas da Itália são um dos patrimônios mais fascinantes e menos conhecidos do país — e sua história começa muito antes de Roma.
Antes de explorar esse mundo, vale uma distinção importante. O termo "cidade subterrânea" abrange realidades bastante diferentes:
- Catacumbas: redes de galerias escavadas para sepultamento coletivo, geralmente fora dos muros urbanos
- Cavernas habitadas: espaços naturais ou escavados usados como moradia permanente, como os Sassi de Matera
- Redes de túneis e aquedutos: infraestrutura subterrânea de abastecimento, drenagem ou transporte, como em Nápoles
- Refúgios e espaços de culto: ambientes escavados para uso religioso, defensivo ou de emergência
Cada tipo tem sua lógica, sua época e sua relação específica com a superfície. O que os une é a mesma vocação italiana de habitar o tempo em todas as suas camadas.
Origens: primeiras cavernas e catacumbas pré-cristãs
O mais antigo exemplo de vida subterrânea na Itália é também o mais impressionante: Matera, na Basilicata, cujos Sassi — os bairros escavados na rocha calcária do canyon do rio Gravina — foram habitados desde o Paleolítico. Matera é considerada um dos assentamentos humanos contínuos mais antigos do mundo.
As habitações rupestres de Matera não eram primitivas: ao longo dos séculos, desenvolveram-se em residências complexas com múltiplos cômodos, sistemas de captação de água da chuva, cisternas coletivas, igrejas escavadas na rocha (chiese rupestri) com afrescos medievais notáveis, e redes de drenagem sofisticadas. A cidade crescia para dentro da pedra tanto quanto para fora.
Em Roma, as primeiras catacumbas datam do século II d.C. e surgem por uma razão precisa: a lei romana proibia sepultamentos dentro dos muros da cidade. Comunidades judaicas foram as primeiras a escavar galerias fora do perímetro urbano para seus mortos. Os cristãos adotaram e expandiram a prática, criando redes que se tornaram também espaços de culto e refúgio durante os períodos de perseguição.
A palavra catacumba tem origem incerta — possivelmente do grego kata kymbas ("próximo às cavidades") ou de um topônimo local da Via Ápia. Com o tempo, o termo passou a designar qualquer rede subterrânea de sepultamento da Antiguidade cristã.
Roma subterrânea: expansão dos subterrâneos no Império e na cristandade
Roma possui a maior e mais complexa rede de catacumbas do mundo. Estima-se que haja mais de 60 catacumbas conhecidas sob a cidade, com centenas de quilômetros de galerias em múltiplos níveis — algumas chegando a cinco andares de profundidade, a até 20 metros abaixo da superfície.
As mais importantes incluem:
- Catacumbas de São Calisto: a maior de Roma, com cerca de 20 km de galerias, quatro níveis e mais de 500.000 sepulturas. Foi o cemitério oficial da Igreja de Roma nos séculos III e IV, onde repousam dezesseis papas
- Catacumbas de São Sebastião: uma das mais antigas e visitadas, na Via Ápia Antica, que preserva grafitos e inscrições de peregrinos do século IV
- Catacumbas de Domitila: as mais extensas da cidade, com 17 km de galerias, que incluem uma basílica subterrânea intacta
- Catacumbas de Priscila: chamadas a "rainha das catacumbas" pela qualidade dos afrescos, com as imagens mais antigas conhecidas da Virgem com o Menino
- Catacumbas de Santa Inês: ligadas à basílica de Santa Agnese fuori le mura, com uso contínuo desde o século IV
Arquitetonicamente, as catacumbas romanas seguem um padrão: galerias estreitas (ambulacra) com loculi — nichos horizontais fechados com lajes de mármore ou cerâmica — escavados nas paredes. Câmaras maiores (cubicula) serviam para famílias ou personagens importantes. As criptas dos mártires tornaram-se pontos de peregrinação, com altares e afrescos votivos acumulados ao longo de séculos.
Entre os séculos II e V, as catacumbas romanas foram o coração da vida religiosa underground da cristandade nascente — literalmente.
Cidades subterrâneas além de Roma: Matera e Nápoles
Matera: a cidade escavada na rocha
Os Sassi di Matera dividem-se em dois bairros históricos — Sasso Caveoso e Sasso Barisano — escavados nas encostas de um canyon profundo no coração da Basilicata. No auge de sua ocupação medieval e moderna, eram uma cidade densa e funcional, com:
- Habitações rupestres de múltiplos cômodos
- Igrejas escavadas na rocha, algumas com afrescos bizantinos do século XI e XII
- Sistemas sofisticados de captação e distribuição de água — cisternas coletivas e canais que aproveitavam cada gota da chuva
- Estábulos integrados às moradias — homens e animais vivendo sob o mesmo teto, o que gerava condições sanitárias graves
No século XX, as condições de vida nos Sassi tornaram-se insustentáveis. Em 1952, o governo italiano — sob pressão de Alcide De Gasperi, que chamou Matera de "vergonha nacional" — decretou a evacuação forçada dos moradores para conjuntos habitacionais modernos. Os Sassi ficaram abandonados por décadas.
A virada veio com o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco em 1993. Desde então, os Sassi foram gradualmente restaurados e reocupados — hoje abrigam hotéis boutique, restaurantes, museus e alguns moradores permanentes. Em 2019, Matera foi Capital Europeia da Cultura.
Nápoles subterrânea
Nápoles tem um subsolo ainda mais complexo. A cidade foi fundada pelos gregos no século VI a.C. sobre um platô de tufo — pedra vulcânica porosa e fácil de escavar. Ao longo de milênios, essa característica geológica foi explorada de formas distintas:
- Pedreiras gregas e romanas: o tufo extraído para construção deixou enormes cavidades subterrâneas que foram progressivamente ampliadas e interligadas
- Aquedutos romanos: a rede de abastecimento de água construída pelos romanos percorria dezenas de quilômetros sob a cidade, usando as cavidades naturais e artificiais como reservatórios
- Uso medieval e moderno: as cavidades serviram como depósitos, adegas, lixeiras e, em momentos de crise, como abrigos
- Segunda Guerra Mundial: durante os bombardeios aliados de 1943 e 1944, dezenas de milhares de napolitanos viveram nos túneis subterrâneos por semanas. Inscrições, objetos e até pinturas rupestres de guerra ainda são visíveis nas paredes
Hoje, a Napoli Sotterranea — Nápoles Subterrânea — é um dos roteiros turísticos mais procurados da cidade, com visitas guiadas que percorrem aquedutos romanos, túneis de guerra e cavidades gregas num mesmo percurso de dois mil anos.
Perguntas frequentes
O que leva à formação de cidades subterrâneas na Itália?
A combinação de fatores geológicos, históricos e práticos. A Itália tem uma variedade extraordinária de rochas escaváveis — tufo vulcânico, calcário, arenito — que facilitam a escavação manual. A proibição de enterros dentro dos muros urbanos romanos impulsionou as catacumbas.
A necessidade de defesa, abrigo e armazenamento motivou túneis e cavidades. E em casos como Matera, a rocha calcária era simplesmente o material de construção mais disponível e mais fácil de trabalhar para populações sem acesso a outros recursos.
Qual a diferença entre catacumba e cidade subterrânea habitada?
A distinção é de uso e permanência. As catacumbas eram espaços destinados aos mortos — redes de sepultamento que podiam ser visitadas para culto ou peregrinação, mas não eram habitadas de forma permanente.
As cidades subterrâneas habitadas, como os Sassi de Matera, eram espaços de vida cotidiana: pessoas dormiam, cozinhavam, criavam animais e rezavam ali. Havia também espaços híbridos — como as igrejas rupestres escavadas na rocha, que eram simultaneamente espaço de culto e, em alguns casos, de moradia para eremitas.
Como se preservam e visitam hoje as cidades subterrâneas italianas?
A maioria dos grandes sítios subterrâneos italianos é hoje gerida por organismos públicos, eclesiásticos ou associações culturais com programas de visita regulamentada. As catacumbas de Roma são administradas pela Pontificia Commissione di Archeologia Sacra, com horários controlados e grupos limitados para preservar o microclima interno.
Matera tem um sistema de visita aos Sassi com museus, igrejas rupestres abertas ao público e hotéis instalados nas antigas moradias. Nápoles Subterrânea funciona com visitas guiadas diárias. A digitalização e a arqueologia não invasiva — com escâneres de georadar e fotogrametria — estão mapeando partes ainda inexploradas dessas redes, ampliando o conhecimento sem necessidade de escavação física.
Uma Itália que existe nas profundezas
As cidades subterrâneas italianas são talvez a metáfora mais precisa de toda a cultura do país: camadas sobre camadas de história, cada uma preservada sob a seguinte, cada uma falando de uma forma diferente de habitar o mundo. Para quem tem ascendência italiana, saber que essa profundidade histórica também faz parte de sua herança é mais um motivo para explorá-la — e, se possível, para formalizá-la.
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